Cuiabá, 17 de Outubro de 2019

COMPORTAMENTO
Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019, 14h:26

EMOÇÃO

Chorar em público é bom ou ruim para você?

Nós temos a tendência a pensar que chorar pode ser catártico, ao mesmo tempo em que chorar em público também pode ser visto como um sinal de fraqueza. Pesquisadores descobriram que essas duas crenças nem sempre se sustentam.

Por BBC

(Foto: Pixabay)

Quando Theresa May anunciou, em maio, que renunciaria ao mandato de primeira-ministra britânica, sua luta visível para conter as lágrimas capturou as manchetes do mundo. Os comentaristas foram rápidos em perceber que esse momento emocional havia finalmente humanizado uma política amplamente vista como fria e distante. Outros – até mesmo alguns dos críticos de May – admitiram sentir uma onda de simpatia por ela.

Aparentemente, essa exposição às câmeras teve um impacto bastante positivo na reputação de May. Essa resposta à demonstração pública de emoção pode ou não ser um choque para você, dependendo de suas crenças pessoais sobre o choro. Mas, de acordo com um grupo de psicólogos da Universidade de Queensland, da Austrália, essas crenças podem, por sua vez, moldar sua próprias tendências e experiências com o choro.

Como Leah Sharman e sua equipe escrevem em um artigo recente, "fatores como a frequência com que uma pessoa chora, como se sente depois de chorar e se o choro a ajuda a lidar com um evento emocional são provavelmente influenciados por crenças e expectativas sobre o choro, o contexto social e a experiência passada".

Para começar a explorar essa possibilidade, Sharman e sua equipe criaram o primeiro teste padronizado sobre crenças de pessoas que choram. Primeiro, eles apresentaram a um pequeno grupo de voluntários algumas perguntas abertas, como "o que você acredita que o choro faz por você quando você está com os outros?".

A partir disso, eles criaram um conjunto de 40 potenciais questionários, desde "depois do choro, eu sinto uma liberação emocional" até "chorar na frente dos outros faz eu me sentir vulnerável". Dois grupos de centenas de voluntários online avaliaram sua concordância (ou falta dela) em uma escala de sete pontos.

A partir das repostas, a equipe de Sharman deduziu que existem três tipos de crenças sobre o choro:

 

  • Chorar em privado é útil: as pessoas cujas crenças se enquadram nesta categoria concordaram com declarações como "chorar me ajuda quando me sinto sobrecarregado" ou "a longo prazo, sei que vou me sentir melhor porque chorei".

 

  • Chorar sozinho é inútil: "Chorar me faz sentir pior quando estou sozinha"; "Sinto-me pior imediatamente depois de chorar".

 

  • Chorar em público é inútil: "sinto vergonha quando choro na frente de pessoas que não são minhas amigas ou familiares"; "Eu me sinto julgado quando choro na frente de colegas de trabalho".

As descobertas de Sharman oferecem algumas das primeiras evidências sistemáticas sobre as crenças das pessoas no choro (embora a pesquisa se refira principalmente a pessoas brancas e ocidentais), e como elas podem variar de acordo com fatores como personalidade e gênero de um indivíduo.

Em relação à dúvida sobre se o choro "privado" é útil, os participantes do estudo pontuaram na marca intermediária, em média, nem concordando nem discordando fortemente dessa afirmação.

Enquanto isso, os participantes discordaram da ideia de que chorar reservadamente é inútil. Colocando as respostas a esses dois primeiros fatores, parece que, no geral, os participantes da pesquisa acreditam que chorar sozinho pode causar muitos danos, mas também pode ser útil.

Essa crença coletiva em um choro em particular coincide principalmente com relatos anedóticos. Por exemplo, uma análise do psicólogo americano Randolph Cornelius em 72 artigos sobre o choro, publicados em meados do século 19 até 1985, descobriu que 94% apresentavam o choro como benéfico ao bem-estar (suas descobertas foram apresentadas em uma conferência em 1986 e citadas muitas vezes desde então).

Além disso, muitos estudiosos e médicos famosos fizeram discursos sobre os benefícios catárticos do choro, como Henry Maudsley, que afirmou que as "tristezas que não encontram vazão em lágrimas podem fazer outros órgãos chorarem".

Mas, em suas pesquisas, os psicólogos descobriram em grande parte o padrão oposto - que, longe de ser catártico, o choro muitas vezes acaba fazendo você se sentir pior.

Por exemplo, um estudo publicado em 2011 por Lauren Bylsma e seus colegas descobriu que o humor geral das pessoas era pior do que o habitual nos dias em que elas choravam, sugerindo que qualquer efeito catártico era modesto, na melhor das hipóteses.

No mesmo estudo, porém, a pesquisadora identificou que os participantes que tinham episódios mais intensos (mas não mais longos) de choro acabavam ficando com o humor melhor. E episódios de choro na companhia de uma outra pessoa eram associados, com mais frequência, a mudanças positivas no humor – mais do que chorar sozinho ou chorar junto a muitas pessoas.

Por outro lado, chorar durante filmes tristes tem sido associado a drásticas quedas de humor.

Um estudo recente sobre o gênero "filme triste" mostrou que, embora o choro tenha levado a uma deterioração inicial do humor, ajuda a melhorá-lo 90 minutos depois (um atraso muito maior do que o observado em estudos anteriores).

Mas, no geral, o quadro que emerge da maioria das pesquisas está em desacordo com a crença popular de que o choro é catártico.

Por exemplo, um estudo de 2016 constatou que, em geral, os "chorões" eram julgados como menos competentes do que os "não-chorões" – e a percepção de perda de competência era maior para homens do que para mulheres.

Porém, uma tentativa de replicar as descobertas em um segundo estudo realizado pelos mesmos pesquisadores não mostrou conclusivamente que indivíduos lacrimejantes eram percebidos como menos competentes.

Outra pesquisa destacou a importância do contexto social: criminosos, por exemplo, são julgados com mais severidade quando são desempregados, bem como quando são homens e não mulheres.

Mas as descobertas sobre a diferença de gênero são sutis. Algumas pesquisas sugeriram que as funcionárias que choram mais são especialmente suscetíveis a serem percebidas como manipuladoras e sensíveis demais, enquanto outras pesquisas apontaram o contrário: os homens que choram no trabalho sofrem mais consequências negativas.

É importante notar que, no geral, as mulheres são vistas como menos competentes do que os homens, independentemente do comportamento. Um estudo da Universidade de Tilburg, da Holanda, por exemplo, cita que as mulheres que não choram no trabalho são vistas como menos competentes do que os homens que também não choram, mas também menos competentes do que os homens que choram.

Apesar disso, há amplas evidências para sugerir que chorar em público também pode trazer alguns benefícios. Chorar pode provocar apoio emocional dos outros – por exemplo, é mais rápido deduzir que os rostos chorosos precisam de apoio. No caso das "quase lágrimas" de Theresa May, ficou claro que a opinião pública britânica demonstrou mais simpatia à ex-primeira-ministra.

Algumas diferenças intrigantes entre os indivíduos também surgiram do estudo de Sharman. Por exemplo, as pessoas que estavam mais em contato com suas emoções, mais emocionalmente expressivas e mais dependentes dos outros para apoio emocional estavam também mais inclinadas a acreditar que o choro é benéfico. Por outro lado, as pessoas que expressaram crenças de que o choro é inútil tendem a dizer que estão menos em contato com suas emoções, além de lutar para controlá-las.

Sharman e seus colegas argumentam que há uma interação entre como vemos o choro e nossos comportamentos.

"É possível que aqueles que acreditam que o choro é inaceitável são mais propensos a reprimir suas emoções em um esforço para reduzir a expressão externa dessa emoção", diz o estudo.

É bem provável que exista uma interação dinâmica de três vias entre nossa visão de chorar, nosso comportamento e nossas experiências. Se você acha que chorar em público é embaraçoso, é provável que você ache essa experiência muito dolorosa, por exemplo.

Se pesquisas futuras confirmarem essa interação, isso se ajustaria ao crescente reconhecimento na psicologia de que nossas atitudes em relação a nossas emoções têm consequências sobre como elas nos afetam. Pessoas que conseguem encontrar valor em experiências adversas (por exemplo, as que reconhecem que momentos de tristeza podem aproximá-la dos demais) parecem menos afetadas negativamente por essas experiências.

É preciso sempre ser cauteloso ao tentar ler a mente de outra pessoa, mas talvez o comportamento impassível habitual de Theresa May esteja enraizado em suas crenças negativas sobre o choro e outras manifestações emocionais. Embora possa ser tarde demais para beneficiar sua carreira política (May foi substituída no cargo de premiê por Boris Johnson), ela pode ter aprendido com as muitas reações simpáticas que recebeu de que a expressividade emocional às vezes pode ser vantajosa.

"Pode ocorrer de as crenças sobre o choro serem atualizadas ao longo da vida, à medida que se experimentam resultados sociais e interpessoais diferentes do choro. Essas crenças atualizadas podem influenciar o choro futuro até que as crenças não sejam mais funcionais e precisem ser atualizadas novamente", escrevem Sharman e seus colegas.


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