Cuiabá, 10 de Dezembro de 2019

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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019, 09h:48

APÓS RENUNCIAR

Evo Morales diz que teve casa atacada e que polícia tem ordem para prendê-lo

Evo anunciou saída da presidência boliviana na tarde deste domingo (10) em rede nacional e seu vice também deixou o cargo. Antes de renunciar, Evo havia convocado novas eleições; auditoria da OEA encontrou indícios de fraude na votação de outubro.

Por G1

(Foto: REUTERS/David Mercado)

Na noite de domingo (10), Evo Morales, que renunciou mais cedo ao cargo de presidente da Bolívia, postou em rede social que um "oficial da polícia anunciou publicamente que tem instrução para executar um mandado de prisão ilegal" contra ele. "Grupos violentos assaltaram minha casa. Os golpistas destroem o Estado de Direito", acrescentou.

Evo voltou ao tema na segunda (11): “Os golpistas que assaltaram a minha casa e a da minha irmã, incendiaram domicílios, ameaçaram de morte ministros e seus filhos e humilharam uma prefeita agora mentem, e tratam de culpar o caos e a violência que eles provocaram. A Bolívia e o mundo são testemunhas do golpe”.

Ele atacou mais os rivais, que tem classificado como golpistas.

“Mesa e Camacho, discriminadores e conspiradores, passarão para a história como racistas e golpistas. Que assumam a responsabilidade de pacificar o país e garantam a estabilidade política e convivência pacífica do nosso povo. O mundo e os bolivianos patriotas repudiam o golpe”.

Por fim, revelou que chorou com as manifestações de apoio.

“Estou muito agradecido com a solidariedade do povo, irmãos da Bolívia e do mundo que se comunicam com recomendações, sugestões e expressões de reconhecimento que nos dão alento, força e energia. Elas me emocionaram até me fazer chorar. Nunca me abandonaram; nunca os abandonarei.”

Havia renunciado poucas horas antes, após uma escalada nas tensões no país. O anúncio foi feito em rede nacional, pela televisão. O vice-presidente, Álvaro García Linera, também apresentou a renúncia.

"Decidi, escutando meus companheiros, renunciar ao meu cargo da presidência", disse Evo.

Logo em seguida, ele atacou seus opositores Carlos Mesa e Luis Fernando Camacho.

"Por que tomei essa decisão? Para que Mesa e Camacho não sigam perseguindo meus irmãos dirigentes sindicais. Para que Mesa e Camacho não sigam queimando a casa dos governadores de Oruro e Chuquisaca."

Evo ainda classificou a situação como um golpe:

"Lamento muito esse golpe cívico, e de alguns setores da polícia que se juntaram para atentar contra a democracia, contra a paz social com violência, com amedrontamento para intimidar o povo boliviano."

Depois de acusar a oposição de atos violentos, ele terminou: "Por essas e muitas razões, estou renunciando, enviando a minha carta renúncia à Assembleia Legislativa Plurinacional da Bolívia. Muito obrigado".

No fim da noite, Evo postou em rede social que um "oficial da polícia anunciou publicamente que recebeu instruções para executar um mandado de prisão ilegal" contra ele. "Grupos violentos assaltaram minha casa. O golpe destrói o estado de direito", denunciou

Evo havia dito, mais cedo neste domingo (10), que convocaria novas eleições, após a Organização dos Estados Americanos, OEA, divulgar que as eleições de 20 de outubro haviam sido fraudadas. Ele lembrou isso em seu pronunciamento de renúncia: "De manhã cedo estivemos reunidos com alguns ministros e decidimos, inclusive, renunciar ao nosso triunfo para que novas eleições ocorram em toda a amplitude".

Não está claro como vão acontecer as novas eleições e nem se ele mesmo será candidato. Mais cedo, ao anunciar a nova votação, Evo disse que elas são importantes para que o povo boliviano possa eleger novas autoridades, "incorporando novos atores políticos".

Pouco antes da renúncia, os chefes das Forças Armadas e da Polícia, além da oposição, haviam pedido que Evo Morales deixasse o cargo para "pacificar" o país.

Carlos Mesa, um dos principais opositores, se pronunciou em uma rede social.

 "À Bolívia, ao seu povo, aos jovens, às mulheres, ao heroísmo da resistência pacífica. Nunca me esquecerei este dia único. O fim da tirania. Agradecido como boliviano por essa lição. Viva a Bolívia!"

Outras renúncias

 

Além de Evo Morales e do vice, Álvaro García Linera, outros dois na linha de sucessão renunciaram: Adriana Salvatierra, a presidente do Senado, e Víctor Borda, presidente da Câmara de Deputados.

A presidente do Supremo Tribunal Eleitoral da Bolívia, Maria Eugenia Choque Quispe, que havia deixado seu cargo na manhã de domingo, foi detida pela polícia após a renúncia do presidente.

Na noite de domingo, o chanceler mexicano Marcelo Ebrard anunciou em rede social que 20 integrantes do Executivo e Legislativo da Bolívia foram abrigados na residência oficial do embaixador mexicano em La Paz, e que ofereceria asilo a Evo se ele quisesse.

Nas fileiras do partido de Evo, o Movimento ao Socialismo, houve dezenas de renúncias a cargos públicos. Os prefeitos de Sucre, Potosí e Oruro deixaram seus cargos, bem como os governadores de Oruro, Potosí, Cochabamba, Bení, além dos ministros de Turismo, Tesouro, Mineração e Segurança, e vários deputados e senadores.

 

Possível sucessão

 

Ainda não está oficialmente definido quem assume a presidência boliviana. A senadora da Unidade Democrática (UD), Jeanine Añez, segunda vice-presidente do Senado, disse que está na linha de sucessão e cumpriria esse papel.

"Como nossa Constituição estabelece, estou na segunda vice-presidência, me corresponderia assumir esse desafio com o único objetivo de convocar novas eleições, pacificar o país e retorná-lo ao normal", disse a senadora a um canal de televisão.

Añez, que vive em Trinidad, disse que, para assumir o cargo de presidente, uma assembléia extraordinária deve ser convocada para aprovar as renúncias de Evo Morales e García Linera. "Espero que tenhamos quórum, porque o MAS tem dois terços na Assembleia", ponderou.

 

Invasão à embaixada da Venezuela

 

Após a renúncia de Evo, a sede da embaixada da Venezuela na Bolívia foi tomada por homens "encapuzados", informou a chefa da missão, Crisbeylee González.

"Com dinamite, encapuzados com escudos tomaram a embaixada da Venezuela na Bolívia. Estamos bem e seguros. Nos ajudem a denunciar essa barbárie", disse a diplomata à ABI.

 

Governo de 13 anos

 

Evo Morales venceu as primeiras eleições presidenciais em 2005 e assumiu em 2006.

Ele foi o primeiro presidente de origem indígena da Bolívia, fato que ele mesmo lembrou em seu pronunciamento de renúncia: "Nesse momento é importante dizer ao povo boliviano, é minha obrigação, como primeiro presidente indígena e presidente de todos os bolivianos, buscar essa pacificação".

Evo foi eleito pela segunda vez em 2009, pela terceira em 2014 e, então, decidiu disputar um quarto mandato seguido em 2019.

Após renunciar, ele disse que ficará na cidade de El Chapare, em Cochabamba –ele negou rumores de que vai sair do país.

 

Eleições tumultuadas

 

A crise na Bolívia tomou maiores proporções após as eleições de 20 de outubro deste ano, quando Evo foi reeleito em primeiro turno.

Depois de uma apuração problemática, o órgão responsável por computar os votos apontou o seguinte resultado final:

 

  • Evo Morales: 47,07% dos votos

 

  • Carlos Mesa: 36,51%

 

Como a diferença entre Morales e Mesa foi de mais de 10 pontos percentuais, o foi reeleito para seu quarto mandato.

O resultado foi contestado pela oposição e, no dia 30 de outubro, a Bolívia e a OEA concordaram em realizar uma auditoria.

Antes desses números serem publicados houve uma indefinição: inicialmente, havia um método mais rápido e preliminar de apuração, e um outro, definitivo e mais lento, onde se conta voto a voto. Os números dessas duas contagens começaram a divergir, e a apuração mais rápida, que indicava que haveria um segundo turno, foi suspensa.

Desde que Evo ganhou, a oposição tem ido às ruas em protestos. A polícia parou de reprimir as manifestações, e houve motins em quartéis do país.

Na sexta (8) e no sábado (9) policiais bolivianos se amotinaram. O governo respondeu com um comunicado no qual denunciava um plano de golpe de estado.


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