Cuiabá, 26 de Fevereiro de 2021

ARTIGOS/UNICANEWS
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2021, 13h:35

ONOFRE RIBEIRO

O Pantanal dos Guardiães

Única News

(Foto: Divulgação)

Desde o começo dos incêndios no Pantanal no ano passado, venho escrevendo, visitando, conversando e levantando dados a respeito da região e da sua História. Fora o conhecimento pessoal iniciado lá em 1976, ano de grande enchente na região toda. Recordo o sobrevôo num avião monomotor de asa alta, junto com o médico veterinário da Secretaria de Agricultura, Luis Carlos Victorino, e mais dois técnicos, avaliando o saldo da enchente. Recordo-me de ver pessoas empoleiradas nas árvores ou nos tetos das casas ilhados pela água alta. Ou de ver o gado com água no peito. E as vacas com as tetas devoradas por piranhas. Acompanhei parte do resgate por barcos da Marinha, sediados em Ladário, vizinha a Corumbá. Os socorridos eram levados pra Fazenda São João, da polêmica construtora Camargo Correa. Vi outras fortes enchentes, como a de 1995. Uma enormidade de água porque choveu muito.

Em 2020, ápice de anos sem chuvas normais, a secura no Pantanal abriu campo pros incêndios. Mas, por detrás, tem uma série de contradições anteriores. A proibição de conservação das pastagens. Depois as pressões acadêmicas contratadas no começo da década de 2000 pelo SESC Pantanal, um órgão público que invadiu o Pantanal com ciência de bolso numa área superior a 140 mil hectares de antigas fazendas compradas pra se fazer uma reserva ambiental particular. O SESC quis legitimar a transformação do Pantanal em área de absoluta conservação ambiental, baseado em rápidas pesquisas feitas por acadêmicos da UFMT contratados com evidente viés ideológico.

Mas depois da crise dos incêndios surgiram vários fatos novos, assinalados abaixo:

1 - Na semana que passou o governo de Mato Grosso assinou um decreto que permite os manejos das pastagens e tudo o mais historicamente na cultura pantaneira;

2 – no auge da crise, os fazendeiros decidiram agrupar forças políticas e criaram um grupo chamado Guardiães do Pantanal, como a sua voz política, econômica e representativa. Logo, não se repetiria hoje o autoritarismo do SESC Pantanal e nem dos acadêmicos, porque enfrentaria o contraponto organizado da cultura social e econômica do Pantanal

3 – a crise toda serviu como lição pra organização regional, pra necessidade de novos programas de modernidade tecnológica e pra reposição ambiental da grande área mais preservada de Mato Grosso, ao contrário do que foi divulgado pela influência da oposição acadêmica;

4 – por último, o governo de Mato Grosso contratou departamento ambiental da UFMT pra fazer pesquisas no Pantanal. Evidente que o espírito ideológico não mudou. Mas haverá a oposição dos Guardiães do Pantanal, caso as pesquisas saiam da rota científica e mirem em rota política.

A conclusão é de que o mal está virando uma oportunidade pro Pantanal se reposicionar dentro do espaço que construiu ao longo de mais de 300 anos de História.

*Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso: onofreribeiro@onofreribeiro.com.br / www.onofreribeiro.com.br


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