Cuiabá, 01 de Dezembro de 2020

COMPORTAMENTO
Domingo, 12 de Julho de 2020, 11h:29

COVID-19

Enfermeiros falam sobre trabalho na pandemia: 'Nenhuma faculdade te prepara'

Arquivo pessoal

"Quando vamos para a chácara a cada 15 dias para ver meus filhos, eles perguntam: ‘pai, você está cuidando da Covid?’. Eu respondo que sim e eles falam: ‘pai, estamos rezando toda noite para Deus proteger o senhor e a mamãe’. Isso é emocionante e também doloroso para gente".

O relato é do enfermeiro Valmir Leme, de 47 anos, que trabalha na área da saúde há 23 anos, mas viu sua rotina de trabalho e até pessoal transformada com a pandemia de Covid-19.

Ao G1, o profissional contou que ele e a esposa, que também é enfermeira, ficam semanas sem ver os filhos para protegê-los do novo inimigo invisível contra qual o mundo todo está lutando.

Para aliviar a tensão, Valmir encontrou um jeito de se aproximar dos pacientes do hospital particular onde trabalha. Ele conversa com cada um deles e diz palavras de apoio que os ajudam na recuperação.

Mas o dilema de lidar com a doença todos os dias vivenciado por Valmir também está fazendo parte da rotina de muitos profissionais da saúde no país. O G1 conversou com outros enfermeiros que trabalham em Sorocaba, interior de São Paulo, e que afirmam que a doença tem mudado a vida de cada um deles.

'Nenhuma faculdade te prepara'

Quando se formou em enfermagem, há pouco mais de um ano, a enfermeira Ana Laura Cassamassimo Ribas, de 23 anos, não imaginava o que iria enfrentar uma pandemia com mortes no início de sua carreira

A jovem trabalha no setor de Covid-19 na Santa Casa de Sorocaba. Ela relata que lidar com o coronavírus é diferente de tudo que aprendeu na faculdade e de tudo que já havia vivenciado como profissional.

"Nenhuma faculdade prepara os profissionais para lidar com esse tipo de coisa. Ninguém estava preparado para isso. É uma coisa que ninguém imaginava passar."

“Nenhuma faculdade prepara os profissionais para lidar com esse tipo de coisa. Ninguém estava preparado para isso. É uma coisa que ninguém imaginava passar. Já tivemos H1N1, dengue, mas uma coisa dessas ninguém estava preparado para lidar. A Covid-19 é totalmente diferente. Tudo. Até a entubação é outra técnica. Uma parada cardíaca a gente tem que agir de outro jeito”, diz.

Ana Laura explicou que os profissionais da unidade receberam um treinamento, no início da pandemia, para saber lidar com a doença. Para dar conta de tanto trabalho, as equipes, que antes trabalhavam seis horas por dia, dobraram o horário e têm uma carga horária de 12 horas.

Com o aumento no número de casos, uma das maiores dificuldades dos profissionais, segundo Ana Laura, é a taxa de ocupação dos leitos para pacientes com Covid-19.

“É assustador. A gente não imaginou que ia precisar de 40 leitos de UTI, que é o que temos hoje. Todos os dias, todos estão ocupados. Isso atrapalha nossa luta, porque ao mesmo tempo que a gente está dando uma alta, a gente está admitindo um novo paciente”.

Para a jovem, o maior desafio na batalha contra o coronavírus são as mortes dos pacientes. Além disso, ela afirma que é muito doloroso ter que dar a notícia para as famílias.

“Lidar com as mortes dos pacientes, para mim, é o mais difícil. Sempre foi. Até antes da Covid. Mas depois é tudo mais intenso, mais complicado. Por mais que não seja um ente querido seu, você está ali prestando um cuidado diário. O mais difícil é pensar que não existe uma família por perto", diz.

"A família deixa o paciente. Ele interna e aí ela só vai ver quando ele tiver alta ou for a óbito. Até o óbito, o processo de morte é diferente. A família não tem direito ao luto”, diz.
Ana Laura contou ainda que foi a juventude que a motivou a aceitar o trabalho e cuidar dos pacientes com Covid-19. Segundo ela, todos os profissionais do setor foram convidados pela administração do hospital para atenderem esses pacientes.

“Nunca pensei em desistir, muito pelo contrário. Eu sou nova, estou com gás. Se não tivesse pessoas ali, que queiram lidar com isso de frente seria muito pior. Lógico, tem dias que é muito difícil. A gente pensa, às vezes: ‘meu Deus, porque escolhi isso?’. Mas a gente tem um propósito maior. E eu sou apaixonada pelo que eu faço. Quando a gente vê um paciente curado, de alta, lembramos porque estamos aqui aqui”.

Morando sozinha, a enfermeira ainda afirma que a ausência da família tem um ponto positivo, mas também negativo.

“Por um lado é bom porque fico tranquila em saber que vou chegar em casa e não vou estar transmitindo para ninguém. Mas o lado ruim é que isso me afastou muito mais da minha família. A gente tem muito medo de transmitir para as outras pessoas. Às vezes os pacientes falam: ‘estou com saudades da minha família e eu falo: eu também estou’. A gente está abrindo mão de certas coisas pela profissão”, relata.

'Viramos psicólogos uns dos outros'

Para enfrentar os desafios da pandemia, o técnico em enfermagem Cleisson Augusto Padilha, de 26 anos, que é técnico de enfermagem em um hospital particular em Sorocaba, contou ao G1 que os profissionais têm se ajudado como podem e, às vezes, acabam virando até “psicólogos” uns dos outros.

Cleisson contou que a rotina profissional mudou muito. Antes de entrar nos quartos, mesmo que para o menor trabalho que seja, é preciso se proteger com os equipamentos de segurança.

“Emocionalmente é bem complicado, mas ainda bem temos suporte entre a gente e entre a empesa, nos damos forças."

“Emocionalmente é bem complicado, mas ainda bem temos suporte entre a gente e entre a empesa, nos damos forças. Viramos psicólogo um do outro. A gente acaba conversando, se apoiando um no outro. É um medo, insegurança de achar que a gente não pode ter uma coriza porque já acha que é sintoma”, relata.

O técnico em enfermagem garante que a empatia com o paciente é um dos quesitos mais importantes na hora do tratamento.

“A gente faz um juramento perante Deus de que a gente ia cuidar do paciente independentemente do que acontecesse. O medo é constante. Mas ele até ajuda a gente a se policiar, a se proteger mais. A gente, como profissional, tem que se ajudar até na hora de se paramentar”, diz.

Cleisson reforçou ainda que os métodos de isolamento e de higiene são fundamentais no combate à Covid-19 e que as pessoas precisam ter noção da rapidez com que a doença evoluí.

“Eu quero que eles [pacientes] tenham novos domingos em família, quero ajudar meus pacientes a não desistir. É empatia, é querer que a outra pessoa também tenha esse privilegio de lutar pela vida”.

'Nunca pensei em desistir'

Penélope Aparecida Esquerdo Fernandes de Oliveira, de 37 anos, é responsável pelo setor de Covid-19 de um hospital público de Sorocaba desde o início da pandemia. Ela conta que a doença mudou o convívio com os familiares e também alterou o dia a dia no hospital.

A enfermeira relatou também que, muitas vezes, os cuidados emocionais com os pacientes com Covid-19 são até maiores dos que são usados com pacientes internados com outras enfermidades.

“Nunca pensei em desistir da minha profissão. Por nenhum motivo na vida eu pensei em desistir, muito menos por conta da pandemia."

“Boas ações e empatia em qualquer situação são muito bem-vindas. É uma ajuda que hoje a gente se esforça para dar uma necessidade maior desses pacientes que, além de estarem lutando contra essa doença, se encontram sozinhos em relação aos seus familiares”, diz.

Além disso, Penélope garante que se preocupa e cuida de toda a equipe responsável pelo setor. Segundo ela, a preocupação é com a saúde e com o bem-estar de cada colaborador.

“Nunca pensei em desistir da minha profissão. Por nenhum motivo na vida eu pensei em desistir, muito menos por conta da pandemia. É pra isso que eu estudei, é para isso que me formei e encaro essa profissão que tanto amo. Jamais vou pensar em desistir. Nessa luta eu vou até o final”.


Comentários







Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site. Clique aqui para denunciar um comentário.


MATÉRIA(S) RELACIONADA(S)




VÍDEO PUBLICIDADE