Cuiabá, 19 de Maio de 2024

POLÍTICA Terça-feira, 21 de Março de 2017, 14:26 - A | A

21 de Março de 2017, 14h:26 - A | A

POLÍTICA / SECRETÁRIA DE SAÚDE

Secretária de saúde de Cuiabá fala sobre atrasos no repasse e desafios na saúde

Aline Almeida / Revista Única



 

(Fotos: Michel Alvim)

Elizeth Lucia

 

Elizeth Lúcia de Araújo fala dos desafios à frente de uma das pastas mais complicadas e quais as ações imediatas para mudar a realidade das carências nesta área. Com pronto socorro atendendo além da capacidade, obras paralisadas, Elizeth Lúcia fala dos gargalos na saúde

 

 

Saúde é direito de todos. Mas não é isso que muitos constatam ao ir a uma unidade de saúde e não ser atendido por falta de médico. Não é isso que um paciente sente quando espera meses e até anos para conseguir realizar um exame ou cirurgia e que muitas vezes morre à espera do atendimento. Não é o que a Maria, o João, a Ana, o José sente ao buscar um remédio de diabetes, para hipertensão e outros e são informados que está em falta.

Para falar sobre a atual situação da área de saúde em Cuiabá e dos projetos para tornar de fato a saúde como direito de todos, a secretária de saúde da Capital Elizeth Lúcia de Araújo fala sobre o assunto. Elizeth que assumiu a pasta no início da gestão Emanuel Pinheiro (PMDB), é graduada em Assistência Social, com especialização em Gestão de Serviços e Sistemas de Saúde e em Atenção Psicossocial. Ela atuou na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e na Saúde Indígena. Já ocupou os cargos de secretária de Saúde do município de Juína e no Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). 

 

“Hoje, somando contrapartida de fevereiro, temos R$ 34 milhões de atrasos de repasses do Estado. Isso tem causado um impacto muito grande para garantir o repasse para os prestadores de serviço e inclusive para ampliar o atendimento”, disse a secretária Elizeth Lúcia.

 

Única - Secretária como foi assumir uma das pastas mais complicadas de todo o Governo, a saúde. Como a senhora encontrou a pasta ao assumir?

Elizeth Lúcia – A saúde pública é algo que eu já faço a discussão há 20 anos como trabalhadora da área, como sanitarista, como quem sempre atuou nesta área na saúde indígena, na saúde pública municipal tanto na Capital como no interior. Sempre atuei nos espaços de discussões de saúde que são os conselhos, os problemas de saúde de Cuiabá sempre foram debatidos nestes espaços, então de certa forma já acompanhava. Há situações que você consegue identificar só quando entra mais a fundo. Encontramos uma Secretaria de Saúde com vários problemas de gestão. Estamos num processo de planejamento, de aquisições e organização das licitações para que possa utilizar melhor o recurso da saúde para não gerar desperdício. Planejar aquilo que é necessidade para que não tenha um alto custo somente em tratar da parte hospitalar, de exame, sem fazer o que é estrutural que é a atenção básica, que é onde de fato vamos conseguir mudar o quadro de saúde da população. Que é enfrentar problemas crônicos de compromisso de servidor com o cumprimento de carga horária. Despertar este servidor que por conta de maus tratos e um conjunto de falta de condições de trabalho ele vai adoecendo, se tornando indiferente até maquinista no trabalho. Ele trabalha sem fazer uma crítica de seu espaço, começa a perder a sensibilidade pelo usuário. Temos conseguido resgatar a vontade do servidor em fazer parte da equipe e trabalhar. Para isso nós estamos mexendo em coisas que às vezes incomoda, mas é necessário para melhorar o atendimento ao cliente. Nossa atuação tem que ser focada em atender o usuário do SUS.

 

Única- Quais os projetos que essa gestão tem para a saúde na Capital? Fale das obras físicas, quais serão essenciais?

Elizeth Lúcia – Todas as unidades básicas de saúde, centros de saúde, centro de diagnóstico, centro de reabilitação, policlínicas, são serviços que vem sendo degradado ao longo do tempo e não teve manutenção. Hoje a estrutura que a gente pega é que às vezes tem a pintura da frente, mas lá dentro tem portas quebradas, paredes com infiltrações, a parte hidrosanitária não funcionando, parte elétrica com problema. Tudo isso identificamos através de um levantamento. Tem um recurso em caixa que o Ministério da Saúde disponibilizou desde 2013 para reformar essas unidades, ampliar e implantar mais equipes de saúde bucal. Acabou que os projetos não se desenvolveram e ficou parado este recurso em caixa, o Ministério notificou o município para fazer a devolução no dia 23 de janeiro. Fizemos uma força-tarefa pedindo apoio para não devolver, mas que possamos fazer um novo planejamento e manter as reformas. Conseguimos este intento por hora e estamos correndo atrás dos projetos que estão sendo elaborados. A maioria já está em licitação. De 63 unidades, 9% sequer iniciaram em nada, 41% já estão em licitação, 36% as empresas começaram e pararam e 14% estão em andamento. São obras importantes para a população de Cuiabá e para todo o Estado. Ter um posto de saúde funcionando, com adequações físicas. Nosso Pronto Socorro precisa de manutenção urgente e não dá para esperar, buscamos uma metodologia para reformar estes locais com menor preço possível. 

 

Única - Hoje a atenção básica é um dos grandes desafios. O Pronto Socorro e as Unidades de Pronto Atendimento estão na maioria das vezes lotadas pela deficiência na atenção primária. Quais serão os investimentos nesta área?

Elizeth Lúcia – Para atenção primária estamos com a reforma das unidades básicas, construções de 16 novas unidades que vai permitir implantar mais 39 equipes de saúde da família. Implantar até o final de quatro anos 40 equipes de saúde bucal, além disso, entrar com processo de capacitação urgente das equipes de saúde da família. Com isso iremos fazer o trabalho voltado à atenção básica, de prevenção, no acolhimento, no diagnóstico mais rápido dos problemas de saúde e assim uma intervenção mais rápida.

 

Única- É muito comum a imprensa noticiar um problema vivenciado por quem vai buscar atendimento nas unidades de saúde: a falta de médicos. Profissionais que não cumprem escalas, atendimentos demorados entre outros problemas. Secretária tem algum projeto em relação ao cumprimento da carga horária e a produtividade dos  profissionais?

Elizeth Lúcia -  Umas das prioridades é colocar o relógio ponto digital em todas as unidades para mensurar de forma mais eficiente o cumprimento de carga horária. Além disso, para entender o porquê do absenteísmo, verificar se a pessoa não tem perfil, de repente remanejar para outro local. Criar a oportunidade de a pessoa trabalhar em outro local para colocar na unidade de saúde a pessoa que tenha perfil. Além do conselho gestor onde a própria comunidade estará ali denunciando.

 

Única - Um mapeamento da própria Secretaria de Saúde mostrou que milhares de pessoas estão agendadas na Central de Regulação à espera de um procedimento. Muitos pacientes reclamam que demoram meses para conseguir realizar exames, pacientes com câncer são exemplos, eles alegam que a demora pode inclusive fazer com que a doença progrida. O que está sendo feito depois deste mapeamento?

Elizeth Lúcia – Já estamos fazendo. Identificar quem de fato está esperando. Muita gente resolveu ou com auxílio de alguém e não deu baixa na regulação. Ou comprou no serviço privado ou até nem quer mais, pois passou o sintoma que ela tinha. Tem uma série de questões que precisamos avaliar. Hoje tem sido agendado e tem tido uma absenteísmo de 54%, as pessoas não estão comparecendo. Essas pessoas que não comparecem voltam para fila e assim não acaba com a fila nunca. A primeira questão é identificar. Fora isso é ampliar a oferta de exames e consultas e ampliar inclusive da nossa rede. Contratualizar com hospitais filantrópicos os serviços e o que faltar comprar no privado.

 

Única- O atraso nos repasses para a saúde do município por parte do Estado foi uma realidade comum no ano passado. Unidades de saúde chegaram até deixar de receber pacientes por falta de pagamento. Os atrasos continuam e quanto impactam o desenvolvimento da saúde?

Elizeth Lúcia - A contrapartida do Estado em relação à saúde da família está em atraso desde julho do ano passado, a contrapartida em relação ao custeio de hospital - com exceção ao repasse das filantrópicas e de uma parte do São Benedito - o restante do recurso não recebe desde outubro do ano passado. Hoje, somando contrapartida de fevereiro, temos R$ 34 milhões de atrasos de repasses do Estado. Isso tem causado um impacto muito grande para garantir o repasse para os prestadores de serviço e inclusive para ampliar o atendimento.

 

Única – Outro problema que temos é a falta de medicamentos nas unidades de saúde e principalmente na Farmácia de Alto Custo. Quando se fala em saúde, depender de um remédio para se manter vivo é a realidade de muitos. O que deve ser feito?

Elizeth Lúcia -  Temos uma licitação antiga que vem desde 2015 e que não tinha todos os medicamentos. Ela foi deserta, tem itens desertos e que não foram adquiridos no período. Temos feito um trabalho de remanejar de um local para outro. Temos uma licitação que está em andamento. O edital deve sair já este mês, para que possamos fazer a aquisição destes medicamentos que estão faltando.

 

 

Única – As visitas as unidades de saúde tem sido já uma marca nesta gestão. O que estas visitas já puderam constatar. O que deve ser feito de planejamento?

Elizeth Lúcia -  Uma das questões que identificamos é criar estratégias para que possamos reformar com menor custo possível. Além disso, notificamos as empresas para retomar as obras paradas e judicializamos para podermos fazer uma nova licitação para aquelas que estão paralisadas. Identificamos também muita falta de equipamentos, equipamentos sucateados. Já estamos demandando uma licitação para aquisição destes equipamentos, principalmente na atenção básica. Já temos recurso em caixa e estaremos fazendo a aquisição. Identificamos a falta de qualificação dos profissionais para atender a população, temos várias frentes de trabalho para capacitação. 

 

Única- Em relação ao Pronto Socorro, ele acaba sendo a porta de entradas para muitos, há casos de pacientes de vários municípios que buscam atendimento naquela unidade. Hoje qual o maior problema do Pronto Socorro e o que será feito?

Elizeth Lúcia – O maior problema é a falta de leito. Nós temos um pronto socorro com capacidade de atender 156 pessoas e está atendendo 300, o dobro da capacidade. Isso gera um desgaste para os profissionais físico e mental. Gera uma série de problemas com usuário que está ali e quer ser atendido, é um direito dele. Às vezes gera conflitos com acompanhantes e profissionais de saúde. Não é um problema que vamos resolver da noite para o dia, mas estamos buscando medidas. Ampliar a contratação com hospitais conveniados, filantrópicos e buscar outras alternativas de ampliação de leitos.

 

Única- Falando em conflitos, vimos nos últimos meses que o embate entre acompanhantes e profissionais de saúde tem sido mais recorrente. A secretaria  já estuda colocar segurança nas unidades de saúde?

Elizeth Lúcia –  O embate e a agressão ao servidor não é algo que começou agora, é algo constante. Estamos inclusive vendo muitos servidores adoecidos em decorrência disso, deste estresse, destes enfrentamentos. De um lado está o usuário em seu direito, mas que muitas vezes se excede. De outro lado temos profissionais sobrecarregados e adoecidos, tem também os profissionais negligentes.  Estamos fazendo reuniões sistemáticas para ouvir os trabalhadores, vamos oferecer serviços psicossociais aos trabalhadores para ajudar a lidar com estresse. Foi buscada uma parceria com a Polícia Militar para retomar o convênio da jornada voluntária, onde o policial faz um plantão no dia de folga e tem a remuneração pela secretaria de saúde. Está em trâmite, aguardando o secretário de Segurança do Estado assinar.  

 

Única – Em relação ao novo Pronto Socorro, qual a previsão de entrega. Qual será a destinação do atual pronto socorro?

Elizeth Lúcia – O prefeito está em negociação com o governador Pedro Taques para fazer um planejamento de desembolso financeiro para celeridade da obra e assim ano que vem ter o pronto socorro em funcionamento. O prefeito tem firme a proposta que o atual pronto socorro seja uma referência no materno-infantil.

“Enquanto estivermos foco em hospital, em pronto socorro, em atendimento de alta complexidade, gastamos toda nossa força e recurso e não altera o quadro de saúde da população. Tem que ter muito claro que o foco na atenção básica tem que ser política de governo”, frisa Elizeth Lúcia.

Única – Como a senhora avalia a Judicialização da saúde, que na maioria das vezes é uma das únicas vias em que o paciente consegue ter o atendimento?

Elizeth Lúcia - Às vezes a judicialização da saúde é a alternativa que a pessoa tem, mas às vezes tem pessoas que tem usado dela de forma indevida, para furar a fila. Ao furar esta fila ela pode deixar para trás uma pessoa com necessidade maior que a dela. A alternativa é melhorar a comunicação com Ministério Público, Defensoria Pública e Judiciário. Que eles entendam o que é de fato urgente e o que é uma situação que o usuário não quer aguardar na fila e quer fazer uma situação para forçar um atendimento mais rápido.

 

Única -  A saúde pública de qualidade é um sonho de todos os cidadãos, como Cuiabá caminha para conquistar este sonho?

Elizeth Lúcia – Com foco e a certeza de que se não organizarmos e ampliar a atenção básica fica muito difícil ofertar uma saúde pública de qualidade para todos. Enquanto estivermos foco em hospital, em pronto socorro, em atendimento de alta complexidade, gastamos toda nossa força e recurso e não altera o quadro de saúde da população. Tem que ter muito claro que o foco na atenção básica tem que ser política de governo. Para isso temos manter as estruturas das unidades em pleno funcionamento, ampliar equipe, melhorar o sistema de comunicação. Melhorar o diálogo com a população para que também ela tome a co-responsabilidade no processo que são as ações preventivas, melhore os hábitos alimentares. O que tem gerado um aumento no SUS é também a população como um todo não ter a preocupação com hábitos alimentares. 

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