Cuiabá, 29 de Maio de 2024

VARIEDADES Sábado, 06 de Maio de 2017, 08:42 - A | A

06 de Maio de 2017, 08h:42 - A | A

VARIEDADES / TURISMO

O fetiche de sentir-se na Europa ao viajar pelo Brasil

Opinião e Notícia



(Foto: Reprodução)

campos-do-jordao.jpg

 

Jorge Luis Borges dizia que, de todas as cidades do planeta, a Genebra do seu exílio voluntário parecia-lhe a mais propícia à felicidade. Para muita gente em “escapadinhas” quase desesperadas do estresse metropolitano — quase em fuga — muitas cidades ditas “turísticas” espalhadas pelo Brasil são assim também, nem que seja só do check-in da sexta à noite ao check-out do domingo de manhã.

 

Em meio ao turbilhão desta contradição absoluta, nomeadamente a da correria da viagem com que se busca um pouco de sossego, nem sempre há tempo, espaço e fôlego para perceber estes lugares, os tais destinos turísticos, em toda a riqueza da sua identidade. O desperdício é especialmente clamoroso em cidades profundamente marcadas pela colonização europeia, onde perduram tradições; perpetuam-se modos de vida, saberes e fazeres; fala-se idiomas e até dialetos de outros cantos do mundo, tudo em nome e em honra de antepassados que migraram para o Brasil, saídos de uma Europa de tempos outros, por vezes sombrios, em busca de maneira melhor de se viver, resultando em tornar tão próximos povos tão distantes, com todo o tesouro cultural que este tipo de encontro é capaz de proporcionar.

 

É o caso, por exemplo, da Colônia Finlandesa de Penedo, uma pequena vila pé de serra do sul do estado do Rio de Janeiro que é um dos destinos turísticos do Brasil mais procurados no inverno que se avizinha. Em Penedo aconteceu o inusitado encontro das culturas nórdica, mineira e fluminense numa antiga fazenda do ciclo do café encravada entre o vale do Paraíba e a serra da Mantiqueira. Os legados mais autênticos deste encontro absolutamente singular, porém, têm minguado ao longo dos anos ante o esplendor de um Centrinho turístico que cresceu sob a proliferação de telhadinhos à moda europeia, à base de muito cimento e pouca sombra, e em torno do shopping Pequena Finlândia, com suas lojas de alvenaria e reboco frisado imitando casas de madeira típicas de cidadezinhas do interior daquele país boreal.

 

O shopping, que tem dentro uma concorrida casa de Papai Noel, foi construído na década de 1990 para impulsionar o turismo de massa na pequena vila, com grande sucesso. Os efeitos colaterais da massificação vieram nas décadas posteriores: em Penedo só resiste um único ateliê de artesanato típico dos colonos finlandeses, com todos os outros sufocados pelas lojas especializadas em vender bugigangas produzidas em série para dar conta da demanda catapultada por souvenirs, e o único restaurante genuinamente finlandês, distante do Centrinho do Papai Noel, fechou as portas cerca de um ano atrás. O Baile Finlandês de Penedo, a mais importante tradição da colônia, coisa típica de slow tourism, luta hoje para sobreviver às dezenas de bares e restaurantes com rodízios de fondue e música ao vivo para todos os gostos.

 

Sobre sua paixão suíça, Borges escreveu também: “Diferentemente de outras cidades, Genebra não é enfática. Paris não ignora que é Paris, a decorosa Londres sabe que é Londres, Genebra quase não sabe que é Genebra”. Penedo obviamente não é Paris; Blumenau certamente não é Londres, e Nova Friburgo, a “Suíça Brasileira”, definitivamente não é Genebra, mas há quem insista em incluir estas e outras cidades em listas de “cidades brasileiras que parecem a Europa”.

 

Talvez o frequentador mais assíduo das listas dessa estirpe seja Campos do Jordão, com suas lojas e restaurantes do Capivari, epicentro do turismo local, construídos no melhor estilo Fachwerk, ou enxaimel, o das casas antigas da Alemanha. Alguns anos atrás um artista de Campos do Jordão criou uma série de cartazes de protesto contra o esforço de alguns empresários do turismo para fazer Campos parecer algo que Campos não é, ao descaracterizarem a linda paisagem da cidade mais alta da serra da Mantiqueira com a construção de um sem número de “castelinhos”, e até de uma cópia da torre Eifel no meio do Capivari. Um desses cartazes dizia: “Campos não é a Suíça. Por uma cidade mais autêntica e menos fake“.

 

Durante muito tempo esses cartazes ficaram expostos nas paredes de uma boa livraria que ficava na rua Djalma Borges, a mais movimentada do Capivari. Onde a livraria existia funciona hoje mais uma loja que vende meias de lã e sandálias infantis de personagens da Marvel e da DC Comics. Campos não é a Suíça, por certo, mas a loja fica em um shopping (a rigor, uma galeria) chamado Genève, ou seja, a Genebra de Jorge Luis Borges quando a ela se referem em bom francês, como o fazem os próprios genebrinos, de nascença ou de coração.

 

Na contramão dos telhados pontiagudos do Capivari, e precisa e curiosamente onde telhados inclinados de fato fazem parte da identidade local, eles estão desaparecendo, em vez de proliferando. Em São Joaquim, na serra catarinense, as casas com telhados altos e inclinados sempre foram uma característica autêntica da cidade, por causa da influência da colonização europeia e das ocorrências de neve. Nas últimas décadas, porém, esse tipo de telhado está desaparecendo da paisagem de São Joaquim, tanto porque custam caro quanto por causa do menor número de nevascas na região.

 

Subtendido em uma pergunta muito comum sobre Penedo, Campos do Jordão, Blumenau, Nova Friburgo, etc, que é: “vale a pena ir dar uma conferida na arquitetura?”, está o desejo insuflado por certo jornalismo de turismo de, estando no Brasil, sentir-se na Europa. Em todas essas cidades, com sua gente levando a vida entre as palmeiras e bananeiras, em escaramuças com as muriçocas, com os barrancos que vêm abaixo em dias de tormentas tropicais, e, sobretudo, às voltas com as dificuldades do dia-a-dia típicas não dos nortes, mas dos suis do mundo, não existem tais semelhanças literais para muito além da cenografia.

 

Talvez existam as literárias: talvez todas essas cidades tenham uma afinidade eletiva com Genebra em matéria de propensão à alegria e à satisfação, o que, de resto, vale mais a pena conferir do que telhados inclinados para melhor escorrer a neve onde uma neve assim nunca caiu; telhados fake que acabam por inspirar uma ou outra fake news na imprensa especializada.

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