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VOLTA AO MUNDO Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019, 11:24 - A | A

20 de Dezembro de 2019, 11h:24 - A | A

VOLTA AO MUNDO / "RACHADINHAS"

Entenda suspeitas do MP sobre Flávio Bolsonaro em esquema na Alerj

Promotores suspeitam que R$ 2,3 milhões tenham sido movimentados. Ex-assessores do filho do presidente Jair Bolsonaro foram alvos de operação de busca e apreensão.

Por G1



O senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, é apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como o chefe de uma organização criminosa que atuou em seu gabinete no período em que foi deputado da Assembleia Legislativa do estado (Alerj). Ele cumpriu quatro mandatos parlamentares consecutivos, entre 2003 e 2018.

A estimativa é que cerca de R$ 2,3 milhões tenham sido movimentados em um esquema no qual funcionários de Flávio Bolsonaro devolviam parte do salário que recebiam na Alerj. O dinheiro, segundo a investigação, era lavado com aplicação em uma loja de chocolates e em imóveis.

O senador nega todas as acusações, se diz vítima de perseguição e critica o vazamento das informações do processo, que corre em segredo de Justiça.

Segundo promotores, a organização criminosa existiu “com alto grau de permanência e estabilidade, entre 2007 e 2018, destinada à prática de desvio de dinheiro público e lavagem de dinheiro”.

(Foto: Arte/G1)

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Entenda a suspeita de 'rachadinha' na Alerj envolvendo Flávio Bolsonaro quando era deputado estadual no Rio de Janeiro e o ex-assessor Fabrício Queiroz.

O papel de Queiroz

 

O ex-PM e ex-assessor de Flávio Bolsonaro Fabrício de Queiroz é apontado pelo MP como operador do esquema. Ele empregava funcionários fantasmas e exigia parte do salário (ou mesmo a integralidade dele) de volta. Ao todo, 13 funcionários participaram da chamada “rachadinha”. A Promotoria identificou o recebimento de 483 depósitos na conta bancária de Queiroz, mais de R$ 2 milhões.

 

O que é “rachadinha”

 

O termo "rachadinha" é usado para definir um esquema de repasse de parte do salário recebido por funcionários, servidores ou prestadores de serviço a um político ou a assessores dele.

 

Como o esquema era organizado

 

A) RACHADINHA

Os investigadores identificaram três grupos de pessoas que foram contratadas no gabinete de Flávio e são suspeitas de desviar recursos:

 

Grupo 1 – Família Queiroz e ex-assessores

 

  • Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, a mulher dele e duas filhas

 

  • Outros 9 ex-assessores de Flávio Bolsonaro

 

Grupo 2 – Parentes de miliciano

 

  • Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega (miliciano do chamado "Escritório do Crime"): suspeita de ser funcionária fantasma da Alerj

 

  • Raimunda Veras Magalhães, sogra de Adriano: suspeita de ser funcionária fantasma da Alerj

 

Segundo MP, ao nomear Danielle e depois Raimunda para cargos comissionados, Flávio Bolsonaro transferiu, ainda que indiretamente, recursos públicos para o acusado de integrar milícia.

Os investigadores dizem as duas receberam R$ 1,029 milhão do gabinete de Flávio e repassaram ao menos R$ 203 mil a Queiroz. A Promotoria diz que elas usaram contas de restaurantes que seriam de Adriano para fazer os repasses. Formalmente, o miliciano não aparece no quadro societário das empresas. Quem aparece é a mãe dele, Raimunda.

Grupo 3 – Família Siqueira

Segundo o MP, 10 pessoas ligadas a Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro, são suspeitas de serem funcionárias fantasmas do gabinete de Flávio. Os nomes incluem o pai de Ana Cristina, tios, primos, irmã e até uma pessoa próxima à família.

O MP aponta que elas moravam em Resende (RJ) na época em que foram contratadas, e muitas não tinham nem mesmo crachá para entrar na Alerj. Entre 2007 e 2018, eles sacaram R$ 4 milhões de suas contas bancárias.

 

B) LAVAGEM DE DINHEIRO

Além dos contratados pelo gabinete, o Ministério Público identificou três outros grupos suspeitos de lavar o dinheiro desviado de salários da Alerj:

 

Grupo 1 — Sargento da PM

 

  • Diego Sodré de Castro Ambrósio, sargento da PM e amigo de Flávio Bolsonaro, e a empresa de vigilância dele, Santa Clara Serviços

 

Investigadores dizem que Ambrósio pagou um boleto de R$ 16.564,81, emitido no nome de Fernanda, mulher de Flávio, em outubro de 2016. O boleto era uma prestação de apartamento comprado pelo casal em Laranjeiras, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro.

O PM disse que era um empréstimo, e que Flávio o ressarciu em espécie. Flávio disse que pediu ajuda para pagar a conta porque não tinha aplicativo do banco no celular na época.

Também em 2016, o PM efetuou transferências para dois assessores de Flávio da Alerj. Além disso, também foram identificados depósitos feitos por ele para a loja de chocolates do atual senador dos anos de 2015 a 2018.

 

Grupo 2 — Loja de chocolate

 

  • Alexandre Ferreira Dias Santini, sócio de Flávio Bolsonaro na empresa Bolsotini Chocolates e Café

 

  • Next Global Importação, Exportação e Logística, empresa de Santini

 

Flávio Bolsonaro detém 50% de uma franquia da loja chocolate Kopenhagen. O MP suspeita que a loja foi usada para lavar dinheiro do esquema das “rachadinhas”. Segundo os investigadores, o volume de dinheiro em espécie depositado na conta da loja era desproporcional em relação ao faturamento.

As quantias depositadas não variavam conforme a sazonalidade das vendas de chocolate (Páscoa e Natal) e coincidiam com as datas em que Fabrício Queiroz arrecadava parte dos salários da Alerj. A quantia lavada na loja pode chegar a R$ 1,6 milhão entre 2015 e 2018, de acordo com as investigações.

 

Grupo 3 – Compra e venda de imóveis

 

  • Glenn Howard Dillard, investidor norte-americano

 

  • CMA Assessoria

 

O MP apura a suspeita de lavagem de R$ 638,4 mil na compra e venda de dois imóveis em Copacabana. Glenn Howard foi o responsável por vender os imóveis com preços abaixo do mercado. Depois, eles foram vendidos por Flávio Bolsonaro com lucro extraordinário. A diferença entre o valor declarado na compra e o declarado na venda é lavado, ou seja, tem a aparência de ser legal.

 

O que dizem os citados

 

Em vídeo publicado nas redes sociais um dia após os primeiros mandados de busca e apreensão na casa dos suspeitos de envolvimento no caso, Flávio Bolsonaro negou 'rachadinhas' e a lavagem de dinheiro. Ele criticou o vazamento das informações do processo, que corre em segredo de Justiça, negou todas as acusações e se disse vítima de perseguição.

O advogado Paulo Klein informou que, por questões de foro íntimo, não representa mais Fabrício Queiroz nem a família dele, mas tem plena convicção da inocência deles em relação aos fatos investigados pelo Ministério Público. A reportagem não conseguiu contato com o novo advogado de Queiroz.

Ao G1, Ana Cristina disse que não poderia se pronunciar porque o processo corre em segredo de Justiça.

Em entrevista ao G1, o sargento da PM Diego Sodré de Castro Ambrósio afirmou que ajudou na campanha de Flávio Bolsonaro. Em relação ao dinheiro pago por ele, contou que apenas ajudou um amigo que estava sem dinheiro na hora. Ele também disse não ter comprovante de empréstimo e afirmou que fez compras de panetone na loja de chocolate para dar a seus clientes. A PM informou que instaurou inquérito policial militar, e o caso seguiu para o Ministério Público do estado.

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