Cuiabá, 20 de Junho de 2024

CIDADES Domingo, 19 de Maio de 2024, 07:58 - A | A

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CIDADES / MORTES NOS BOMBEIROS

Mãe de Rodrigo Claro desabafa: "Espero que o Lucas Veloso tenha a justiça que meu filho não teve"

Jane Patrícia Claro falou sobre a dor e frustração que ainda sente pela falta de respostas e impunidade a morte do filho.

Ari Miranda
Única News



Jane Patrícia Lima Claro, mãe do aluno-bombeiro Rodrigo Claro (21), que morreu afogado durante um treino de salvamento aquático do Curso de Formação de Soldados (CFS) do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, em novembro de 2016, na Lagoa Trevisan, em Cuiabá, falou em entrevista exclusiva ao Única News sobre a sensação de injustiça em relação à morte do filho.

A afirmação foi feita após a conclusão do inquérito sobre a morte do também aluno-bombeiro, Lucas Veloso Peres (27), na última quarta-feira (15). Lucas morreu em 27 de fevereiro deste ano, durante o mesmo treinamento feito por Rodrigo. Foram indiciados pela morte de Lucas Veloso o capitão Daniel Alves, por Homicídio com Dolo Eventual (quando assume o risco de matar) e outros dois soldados, pelo crime de maus-tratos.

LEIA MAIS: Bombeiros conclui inquérito e indicia capitão e soldado por morte de Lucas Veloso

Jane Claro relatou a dor e frustração que sente ao relembrar a morte do filho e o fato do caso ter ficado sem respostas, destacando que, diferente de seu filho, espera que a justiça seja feita em relação à morte de Lucas Veloso.

“É tão difícil falar sobre isso, aquela ferida que se abre novamente. Mas, diante do que a gente viu sair do caso do Lucas [Veloso], a gente espera que de fato essa justiça possa acontecer. Que não venha acontecer com a morte do Lucas o mesmo que aconteceu com o caso do Rodrigo, do meu filho”, destacou.

Além disso, a mãe de Rodrigo Claro lamentou o fato de o caso de seu filho ter ficado sem punições severas à principal acusada pelo crime, a tenente Izadora Ledur de Souza Dechamps, que teve sua condenação prescrita, em decisão proferida pelo juiz João Bosco Soares da Silva, da 11ª Vara Criminal de Justiça Militar de Cuiabá, em agosto de 2022.

“Infelizmente, a pessoa que causou toda a situação envolvendo o meu filho, que no caso é a Izadora Ledur, é que através dos atos dela, o meu filho veio a óbito naquele dia 15 de novembro de 2016. E a pessoa faz tanto mal, tira uma vida, recebe toda a proteção do comando do Corpo de Bombeiros, das pessoas que deveriam promover a justiça, acabam protegendo pessoas que cometem crime tão bárbaro quanto contra a vida", ressaltou.

Jane ainda criticou o fato de uma das testemunhas de Izadora Ledur no caso da morte de seu filho, o capitão Daniel Alves, ter sido apontado como causador da morte de Lucas Veloso.

"Aconteceu com o Rodrigo, agora aconteceu com o Lucas. Será que o governo do estado vai aguardar mais uma morte acontecer pra tirar esse homem do comando”, questionou.

Por fim, Jane Patrícia Claro reiterou sobre a dor de ter perdido o filho de uma forma tão trágica, desejando que a Justiça que não foi feita por Rodrigo seja feita pela morte de Lucas Veloso e os responsáveis pelo crime punidos no rigor da lei.

“Estão tirando a vida de uma família inteira, porque ninguém mais consegue ter [vida] depois de perder pessoas de maneira tão cruel e covarde, como eles fizeram com o Rodrigo [Claro] e agora com o Lucas [Veloso]. E a gente espera de todo o coração que essa luta, que essa batalha que o senhor Cleuvimar [Peres], que é o pai do Lucas, está enfrentando agora, que eu já enfrentei, infelizmente, eu espero que ele tenha êxito nessa busca por justiça”, asseverou.

“Que os futuros juízes militares que estarão lá pra julgar esse caso sejam pessoas competentes e comprometidas com a verdade, com a justiça acima de tudo. Que essas pessoas tenham de coragem de olhar pros olhos do pai, da mãe, da família do Lucas e que sejam capazes de fazer justiça”, concluiu.

(Foto: Reprodução/Internet)

RODRIGO CLARO.jpg

O aluno-bombeiro Rodrigo Claro.

CASO RODRIGO CLARO

Rodrigo Patrício Lima Claro, 21 anos, morreu após passar mal durante o treinamento do 16° Curso de Formação de Soldados Bombeiros (CFSd BM), realizado na Lagoa Trevisan, zona rural de Cuiabá em novembro de 2016. Ele chegou a ser levado para o Hospital Jardim Cuiabá, onde permaneceu internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por cinco dias.

Em depoimento, colegas de curso de Rodrigo informaram que ele vinha sendo submetido a diversos "caldos", termo usado para definir a ação de afundar a cabeça do aluno na água, segurando-o pelos cabelos ou nuca e empurrando violentamente para submersão, como forma de castigo ou punição.

Segundo testemunhas, Rodrigo chegou a reclamar de dores de cabeça e exaustão. Ainda assim, ele teria sido obrigado a continuar na aula pela tenente Ledur, que na época era responsável pelos treinamentos dos novos soldados da corporação.

Para o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Rodrigo teria apresentado dificuldades para desenvolver atividades como flutuação, nado livre e outros exercícios e, ainda assim, a oficial utilizava métodos abusivos nos treinamentos para puni-lo, revelando “inequivocamente, o perfil perverso da tenente como instrutora”.

Reprodução/Internet

Ledur

A tenente-bombeira Izadora Ledur.

CONDENAÇÃO BRANDA

O julgamento do caso envolvendo a morte de Rodrigo Claro ocorreu em 2021, após adiamento a pedido da defesa de Ledur. Além disso, desde a morte do aluno, a tenente bombeiro apresentou uma série de atestados médicos desde a morte do jovem.

A tenente foi condenada a 1 ano de prisão em regime aberto. Todavia, em 2022, o juiz João Bosco Soares da Silva, da 11ª Vara Criminal de Cuiabá, anunciou a prescrição do caso.

“Nota-se que não há argumento jurídico plausível em sentido contrário, pois, se é certo que não houve absolvição stricto sensu, com cotejo de provas, também não houve condenação. Assim, estando satisfeito o requisito para a promoção em ressarcimento por preterição, deve o nome da autora figurar nos respectivos quadros de acessos para a graduação ao posto de Capitã do Corpo de Bombeiros, por antiguidade, a partir de 22 de novembro de 2016”, cita trecho da sentença.

(Foto: Reprodução/Internet)

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O aluno-bombeiro Lucas Veloso, morto durante treinamento na Lagoa Trevisan.

CASO LUCAS VELOSO

Lucas morreu na manhã do dia 27 de fevereiro deste ano, após se afogar durante um treino de salvamento aquático na Lagoa Trevisan. Natural de Caiapônia, no sudoeste de Goiás, Lucas passou no concurso público em 2022 e havia vindo para Cuiabá em junho de 2023, onde fazia o Curso de Formação de Soldados-Bombeiros (CFSd Bm).

Inicialmente, a morte do militar foi tratada como um mal súbito. No entanto, após a necropsia, ficou constatado que o aluno morreu por afogamento.

Segundo informações da Polícia Civil, durante o aquecimento para o curso de salvamento aquático, Lucas teria começado a sentir falta de ar. Mesmo se sentindo mal, o aluno iniciou o procedimento quando, afundou repentinamente.

Inicialmente, a equipe da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) chegou a atender a ocorrência. No entanto, por se tratar de um caso ocorrido na esfera militar, o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso (CBMMT) assumiu a ocorrência e instaurou um inquérito para apurar o caso.

Conversas de WhatsApp que circularam nas redes sociais logo após o incidente, atribuídos a dois supostos alunos-bombeiros que testemunharam o acontecido na Lagoa Trevisan, apontaram que houvera excessos durante o treinamento.

Conforme a conversa, assim como Rodrigo Claro, Lucas Veloso teria sido vítima dos chamados “caldos”.

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