Cuiabá, 11 de Julho de 2020

ARTIGOS/UNICANEWS
Domingo, 28 de Junho de 2020, 15h:55

MARISA BATALHA

A história contará sobre a pandemia, mas não será capaz de quantificar as lágrimas

(Foto: Reprodução)

Em tempos de redes interligadas por computadores, assim, informações repassadas em tempo real e inúmeras especulaçõe, com muitas notícias falsas, algumas até bem escritas ou bem elaboradas, o que causam bastante confusão; ou ainda aquelas reveladas por meio de vídeos e lives, com ares de verdade absoluta, mostram bem em meio ao 'olho do furacão', o quanto estamos em pânico com a pandemia da covid-19.

Desta forma, entre os milhares de posts que vêm sendo disseminados por meio da web, um me chamou, particularmente, a atenção. E acabou me motivando a escrever este artigo. Sobretudo, porque nos revela sobre o quanto o homem esquece fácil, ou opta, sei lá porque, em ter memória curta sobre os fatos históricos.

Nos revelando as relações que a história tem com o tempo. E como os tempos deste mundo são cíclicos. Em uma dialética histórica que insiste, contudo, como diz Jacques Le Goff, em seu livro História e Memória, em resumir dores em fatos, sem emoções. Comumente, em diálogos que classificam as situações em passado, presente e futuro. Claro, nem sempre neutra, mas na maioria das vezes racional, exprimindo-as em um sistema de atribuição de valores como, por exemplo, antigo, moderno, pós moderno ou contemporâneo. Mas sem, contudo, exprimir o tamanho dos nossos medos ao longo da história e de seus acontecimentos.

Pautada nesta verdade, vamos retormar um pouca desta história, com um personagem real, ainda que não tenha um nome em específico mas, inequivocamente, real. Então imagine que você nasceu em 1.900, no início do século 20. Desta forma, quando você tinha 14 anos começou a Primeira Guerra Mundial [de 28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918] e terminou quando você tinha 18 anos e acompanhou o saldo deste conflito, com mais de 20 milhões de mortos.

Ao final da guerra - de janeiro de 1918 a dezembro de 1920 -, o mundo é pego de surpresa com uma pandemia mundial de gripe, a chamada Gripe Espanhola, que deixou milhões de vítimas na Europa. Estimando-se que o número tenha ultrapassado a casa dos 50 milhões de mortos, tornando-se uma das epidemias mais mortais da história da humanidade.

Mas - sob o olhar desta história -, você ainda está vivo, com 20 anos e agradece a Deus pelo milagre. Mas nove anos depois, em 1.929 - quando você tem 29 anos e sobreviveu à guerra e à peste -, pensa 'será que vou agora sobreviver à 'Grande Depressão' que gerou, além de perdas financeiras inimagináveis de banqueiros, empresários e fazendeiros', igualmente, resultou em uma onda gigante de suicídios, inflação, desemprego e fome.

Quando você tem 39 anos começa a Segunda Guerra Mundial, iniciada no dia 1 de setembro de 1939 e vai até 2 de setembro de 1945. Quando ela termima você está com 45 anos, tendo observado 'in loco' ou pelos meios de comunicação, a morte de pelo menos 85 milhões de pessoas, com mais de 50 milhões de civis entre as vítimas, dentre eles seis milhões de judeus e cinco milhões de ciganos, que quase nunca são contabilizados.

Mas como o intricado jogo do poder não tem limites, vem outra guerra, a da Coreia, um conflito militar que ocorreu de 1950 a 1953, deixando mais de 2 milhões de óbitos. Em seguida, vem a Guerra do Vietnã [de novembro de 1955 a abril de 1975], e você é obrigado a conviver com mais outros milhões de mortos. Ou seja, ela termina quando você tem 75 anos.

O que vem em seguida - até para que possamos ter uma visão sobre os grandes conflitos que marcaram o século 20, como se estivéssemos apenas lendo um livro de história -, são apenas criações de sociólogos e analistas de marketing que, abortaram sentimentos, trocando-os por termos mais futuristas. Ao classificar estes novos humanos, longe dos conflitos lá de trás, a partir dos anos 80, do século 20, como as gerações Y [millennials], nascidos entre 1980 e 1995, atualmente com 25 a 40 anos. Ou a Geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, atualmente com 10 a 25 anos, ou, agora, a Geração Alpha, dos nascidos a partir de 2010. Dando a cada um deste humanos, novos comportamentos.

Seria mais ou menos o que os físicos quânticos estão tentando conceituar, hoje, por conta da pandemia e, claro, criando uma maneira de explica-la, ao denominar os que vão sobreviver ao novo coronavírus, como 'os homens de uma nova Terra'. Já com um compêndio cheio de regras de como deverão se compotar estes novos humanos.

Contudo, se a história é cíclica, e conta sobre os tempos vividos pelo homem, precisamos desloca-la, entretanto, da frieza dos livros. Até como forma de lembrarmos sobre a coragem dos nossos pais e avós e usarmos destas experiências como uma referência e encontrarmos nestas vidas, motivos para vivermos as nossas. Lembrando, obviamente, que não estamos em dias fáceis, muito pelo contrário. A covid-19 não tem cura, é de fácil disseminação e possui alta letalidade. Particularmente, para os grupos considerados de risco, como eu, que possuo comorbidades perigosas.

Entretando, e ao bem da verdade, uma pandemia bem distante das dificuldades vividas pelos nossos familiares lá atrás. Pois hoje, estamos vivendo um distanciamento social dentro de casa, em teletrabalho ou home office. Com eletricidade dentro de casa. Água, comida e muitos com seus empregos mantidos, diferentemente, de outros tempos vividos pela humanidade.

Claro, que sob os mesmos riscos de morte, de uma ruptura social, por conta da paralisia econômica. Dentro de decretos que nos avisam que a polícia pode nos pegar e punir, em caso de descumprimento das medidas de biossegurança. Mas, literalmente, em uma situação um pouco mais confortável do que a vivida pelos nossos familiares, sobretudo, até no meio do século 20, onde todas as situações históricas não conseguiram quantificar as lágrimas e o sangue derramado.

E memo que nenhum de nós saiba, de fato, quantos de nós sobreviverão a mais esta hecatombe[mortandade], entretanto, como nas advertências encontradas em bulas de remédios ou nas caixas de cigarros, temos pelo menos algumas opções que lá, atrás, eles não tiveram: seguir algumas regras de sobrevivência, até que seja encontrada uma vacina para a covid-19.

Como ficar em casa, sermos melhores conosco, ao nos darmos mais atenção, quando as autoridades não deveriam nem pedir, mais pedem, que sejamos, assim, mais eficientes com nossa higienização. E que aqueles que precisam sair, como forma de assegurar a sua sobrevivência e a de sua família, usem as medidas não farmacológicas como álcool em gel e máscaras.

E, claro, que nossos gestores, escolhidos nas urnas por nós, para fazerem bom uso dos impostos que cada um de nós paga, usem com decência os recursos que têm sido colocados à disposição. Pois hoje, domingo, 28 de junho, o Brasil computa 1,3 milhão de casos confirmadoa pela infecção e quase 58 mil mortes. E, em Mato Grosso, segue acelerada já caminhando para 600 óbitos.

Mas no cômputo geral, as mortes pela covid-19 já ultrapassaram os números deixados pela peste amarela no país. Se levarmos em conta a dada de '5 de junho de 2020', por exemplo, quando as mortes já eram mais de 35 mil, estes registros nos revelam que ultrapassamos a quantidade de óbitos deixadas pela Gripe Espanhola quando a doença atingiu o Brasil em 1918, e a população nacional, da época, era de aproximadamente 30 milhões de pessoas.

Assim, se nossos gestores não se movimentarem de forma mais rápida, na abertura de mais leitos de UTIs e protocolos eficazes de atendimento nas redes públicas de saúde, capazes de salvar vidas, muitos de nós não sobreviverão. E estes senhores da política terão um dia, sem dúvida, dar conta do que fizeram com Deus. Claro, caso tenham errado, roubado, dissimulado ações, enfim.

Já nós, simples mortais, que possamos sair desta pandemia como pessoas melhores, maiores,sobretudo, mais humanas.

Marisa Batalha é jornalista, mestra em Movimentos Sociais e Educação pela UFMT, e editora-chefe do Site O Bom da Notícia

 


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